14/05/2011

Relato de Parto do Joaquim - 03.05.2011

 Enquanto meus meninos dormem, entre uma troca de fralda, uma mamada e uma brincadeira com o mais velho, eu escrevo. Lembrando ainda da semana passada, tudo tão recente e parecendo já muito distante. As memórias de um parto são diferentes de tudo que vivemos. Uma mistura louca de hormônios, adrenalina, ocitocina, endorfina, nos faz ver o mundo com outros olhos, mais com o coração que com a visão em si. E meu coração, cheio de emoção, só tem boas lembranças.
A gente esquece da dor do parto, é verdade! Talvez seja isso que nos faz ter coragem de encarar uma nova gestação! Mas a lembrança que fica da dor é a minha velha frase de outro parto: "Valeu a pena!". Foi instintivo dizer isso assim que dei a luz a meu primeiro filho e depois descobri que essa frase é comum das mulheres paridas. Sim, vale a pena. Cada dor, cada contração, o momento da expulsão... cada força... força, força.... nasceu! Ufa! Acabou! Estou pronta! Pode vir mamar, meu novo bebê! Não sinto mais nada! E a dor foi embora. Agora é só amar, sentir cheirinho de bebê novinho cheirando a vernix, amamentar, trocar fralda, amamentar, trocar fralda, amamentar, trocar fralda e assim vai.
Tudo bem diferente de um dia antes do parto, em que eu sai logo cedo para caminhar ouvindo música, arrumei a casa mais uma vez, como um instinto de arrumar o ninho, sentia cada contração como se fosse as últimas apenas incômodas e não doloridas.
Pressenti que o momento estava chegando, eu estava mais sensível, caminhando, me emocionei ouvindo a mesma música que ouvia todos os dias. Postei no Facebook que eu estava de "malas prontas para Partolândia", despertei em minhas amigas a curiosidade do momento do nascimento, todos me desejavam boa hora... Mas que hora? Afinal ainda estava apenas completando 39 semanas, poderia ainda ser grávida por semanas! Que nada, era a hora mesmo!
A noite eu comprovei que tudo estava realmente diferente. Uma contração mais incomoda, outra mais dolorida, um micro pedaço de tampão na calcinha... Fui cronometrar as contrações e elas vinham em uma média de 10 minutos, muito frequentes mas pouco regulares! Rafael, meu marido, já ansioso e temendo ser o "parteiro" sem querer, me fez ligar para parteira. Fizemos nosso filho mais velho, Tomás de 2 anos e 10 meses dormir e ligamos para ela, que nos pediu para contar quantas contrações teríamos na próxima hora. Não conseguimos esperar. Em menos de 10 minutos foram 3 contrações. Liguei. Ela disse: "Estou saindo agora!" e nem me deixou explicar aquela ladainha de intervalo de contrações... Sabe aquela sensação que não é verdade, que pode ser apenas um alarme falso, que é melhor ela não vir, esperar mais um pouco... Senti vergonha dela chegar e não ser trabalho de parto verdadeiro. Talvez isso me fez bloquear as contrações, que foram se espaçando novamente, ficando mais suaves, até que ela chegou e elas pararam. Pronto. Ela veio de São Paulo até Campinas, quase meia noite, saiu de casa correndo e não era nada de trabalho de parto. Apenas 2 centímetros de dilatação. Piscina de peixinho cheia de água quentinha no meio da sala, luzes apagadas, velas acesas...Resolvemos dormir.
 A parteira foi dormir na casa da neonatologista, que é perto da minha casa, e nós fomos para cama. Todos dormindo, menos eu, as contrações voltaram. Tentei um banho quente e o processo só se intensificou. Desisti de dormir pois era impossível ficar deitada. Fui para cozinha esquentar água para colocar na piscina, ela não podia esfriar, eu sabia que realmente estava chegando a hora. Sentia uma paz, uma emoção de pensar que enfim chegou a hora de eu conhecer Joaquim, meu segundo anjinho, meu segundo filho, meu segundo menino. E para alegria do papai, justo no dia de seu aniversário, 3 de Maio.
Já era quase 4 horas da madrugada. A os vidros da casa estavam todos embaçados com o calor úmido vindo da piscina. Até que os barulhos que eu fazia na cozinha acordaram Rafa, que desceu as escadas estranhando eu estar sozinha esquentando panelas de água. E tudo foi ficando mais intenso. Eu já não conseguia ser mais tão racional nos intervalos das contrações. Chamamos a parteira. Dessa vez eu não tinha mais dúvidas. Entrei na piscina.
E, agora em diante, não acredite em tudo que lê. Apesar de eu tentar ser o mais verdadeira possível, não sei ao certo nada, nada é mais tão lógico, nada é mais tão concreto. 
Eu só sei que foi ficando tudo muito diferente do primeiro parto. Tudo. Um parto realmente pode ser diferente do outro. E esse parto não só teve a parteira de diferente, teve tudo. Eu não sentia dor em nenhum outro lugar do corpo que não fosse na parte baixa da barriga durante as contrações. As contrações eram muito mais intensas, muito mais frequentes. Eu dizia: "Já outra?" e gemia, sem pensar em nada, apenas que os vizinhos por certo estavam pensando que eu e o Rafa eramos um casal grávido e bem "empolgados" sexualmente em plena madrugada!
E aquela história de eu sonhar com um trabalho de parto longo, foi logo logo desfeito. Nada disso! Estava muito intenso para se suportar por longas horas! Queria que acabasse logo. Pedia para parteira me falar quanto eu estava de dilatação, se estava próximo do fim ou não. Só pensava que eu não podia ainda estar apenas no começo e já estar tão intenso. E mesmo sem nenhum toque, ela me acalmou dizendo que pela intensidade das contrações eu devia estar próximo do fim. Mas e o expulsivo? Não podemos deixar para outro dia? Quem sabe semana que vem? Bateu o medo da dor que senti no expulsivo no primeiro parto. A dor aguda que parecia que eu iria rachar ao meio. Vi que eu não tinha conseguido me resolver sobre essa questão durante os nove meses grávida. Eu tentei negar esse medo, fingir que ele não existia. Pensar apenas que poderia ser diferente no segundo parto. Cada parto é um parto, certo? Então me lembrei disso e tentei desencanar. E entre uma contração e outra, me agarrava ao Rafa, tentava me entregar. Vi de longe a parteira ligando para neonatologista e dizendo para ela vir, que poderia ser a qualquer momento. Não tinha mais jeito, agora era sério mesmo. Não ia dar para deixar para semana que vem. E as contrações começaram a vir com uma vontade louca de fazer força, era incontrolável. O sol nascia, a casa se iluminava.Vontade de fazer cocô. Fui no banheiro, tinha medo de o Joaquim nascer lá. Tinha medo de fazer cocô na piscina. Preferi vencer os medos de fazer cocô na piscina que ter meu filho na privada. 
Olhava a neonatologista sentada em frente ao notebook, a parteira com seu iPad, como se nada estivesse acontecendo, aguardando o bebê nascer. Me dava segurança, apesar de ter sentido insegurança um tempo antes ao ver elas mexendo em um cilindro de oxigênio. A parteira, de tempos em tempos vinha ouvir os batimento do coração de Joaquim, um alívio, sempre ótimos. A cada contração, eu me agarrava ao Rafa, me inclinando para frente.
 A parteira me falou para sentir a cabecinha do bebê com o dedo. Estava lá mesmo, ele estava descendo! Rebordo de colo para variar... afinal, alguma coisa tinha que ser igual ao primeiro parto. Algumas contrações tentando uma manobra para resolver o problema, problema resolvido, mais algumas contrações...Tomás acordou. Rafa foi buscá-lo. Eu já não estava nem um pouco preocupada com o que ele iria pensar ao ver a mãe parindo. E ele parecia nem ligar também, apenas me assistia, no colo do papai, sentado no sofá da sala, como se assistisse a um desenho animado, com olhos atentos e como se aquilo fosse natural para ele. E deve ser mesmo, parir é natural. Nascer é natural.
E eu de novo com medo da dor do expulsivo misturado com medo de fazer cocô na piscina me faziam fazer uma força sem tanto empenho. Mas mesmo assim foi saindo a cabeça do Joaquim, eu tocava e sentia suas orelhinhas. Eu gritava! Era uma dor muito diferente, era uma dor de circulo de fogo, muito intensa, mas nada de sentir como se eu fosse rachar ao meio, como no 1º parto. Nada agudo. Era um calor forte, uma coisa sem explicação. E eu, que tinha o sonho de parir sem nenhuma ajuda para sair o bebê, pedi a parteira que tirasse meu filho dali. Ela me sugeriu mudar de posição, deitar de lado na piscina, puxar meus joelhos junto ao peito, ouvia Tomás falando "Força, mamãe!" e junto com um último grito, as 7h42min, saiu todo seu corpinho, com 4kg, 51,5cm, quente, rosa, cheio de vernix, gordo e lindo! (E sem nenhuma laceração!) E através das mãos da parteira, veio para meu colo, cordão longo o suficiente para poder me proporcionar essa maravilhosa sensação de ter um filho junto ao peito e ainda com cordão pulsando. É indescritível!
 Alguns segundos que pareciam ser eternos, em um momento racional, confirmei com a neonalogista se Joaquim estava bem e voltei para o lado emocional me debulhando em lágrimas, num choro forte de uma explosão de muito amor e muita felicidade! Olhava meu marido com Tomás no colo e eu com Joaquim, nossa familia mais completa e cheia de saúde e só pensava que mais uma vez, tudo havia valido a pena! Tudo.
A placenta demorou para sair. Nada de sangramentos mas demorou. Massagens, bebê mamando, inalei e tomei injeção de ocitocina e depois de 5 horas ela resolveu nascer! Foi a parte mais chatinha do parto, doeu, incomodou, meus pais já estavam em casa. Mas como a dor do parto, eu praticamente já me esqueci.
Agradecimentos:
A parteira AC, por fazer MUITO e ao mesmo tempo tão "pouco"....
A neonatologista Ana Paula Caldas, sua presença encheu minha casa de paz...
A doula Lara que me visitou no pós parto, e por todas reuniões no Grupo Samaúma, com suas palavras doces e confortantes...
Ao meu marido, por sonhar comigo mais um filho e por me apoiar sempre para parir assim, em casa, tranquila e feliz....
Ao meu filho Tomás, por tudo que ele é...
E ao Joaquim, que me mostrou que amor de mãe só se multiplica e nunca, nunca se divide!

7 comentários:

Dani Garbellini disse...

Relato lindo, como vocês!
Beijo!

Kel disse...

Kata, que delícia ler esses relatos...dá até vontade de parir de novo...hahaha... ai, eu e minhas idéias jaculescas...:D
Parabéns pela família linda!!
Beijocas,

Rafael Moreno disse...

Ka, que relato mais lindo meu amor! Foi mais um parto muito emocionante e que trouxe mais um anjinho lindo para nossas vidas. Nossos filhos são maravilhosos e a razão de todas nossas alegrias nesta vida! Parabéns mais uma vez por ser essa guerreira e por abrir meus olhos (desde a gravidez do Tomás) sobre a alegria que é ter um filhinho dentro da nossa casa, do nosso lar! Te amo e desejo muitos mais filhinhos para nós, pelo menos mais 2 hehe
Beijos!

Marilyn disse...

Katarina... nem sei o que escrever... parabéns pela mulher leoa q existe dentro de vc.!

Eu já havia chorado bicas d´agua naquele vídeo do Tomás, no relato do Joaquim eu quase morri de tanto chorar... afeee mulher... acho q até emagreci, rssss

Parabéns, milhões de parabéns, pq dava pra ver na carinha de cada um de vcs. uma alegria irradiante!
Um bj cheio de emoção
Marilyn

Julia Lopo disse...

Kata, sublime!

Parabéns pela família que vc e o Rafa construiram!!! E obrigada por compartilhar mais uma vez sua história!

Bjs ardido!

Ana Cristina Duarte disse...

As fotos mostram a verdade!! Sorriso de vitória!
Beijo grande querida!

Ana Carolina disse...

Emocionante demais!!

Chorei...